sábado, 24 de agosto de 2013

A NOITE

A noite vem apagando os céus
E a tarde perdida vaga em torno
Vestindo seu longo burel
Envolve o dia em fúnebres contornos.

E uma a uma com seus longos dedos
Vai pendurando nos espaços vazios
Suas estrelas refulgentes e o medo
Entre as criaturas o vento frio.

Já é noite altiva e austera
Em reverência o azul recua
Pra disfarçar sua face severa
Como um sorriso nos dá a lua.
 

Ana Roen

ADEUS, MEUS SONHOS

Cambaleando do intrépido cansaço
Uma voz louca em mim grita
E à essa voz abrem-se todas as criptas
E há um túmulo em todos os espaços.

A ilusão repousa já funesta
Não há um só gesto, uma única ação
Nada me retém ou faz menção
Só o fúnebre silêncio aqui se manifesta.

Compreendo a hora final e derradeira
Vendo a luz, que avista o moribundo
A única luz me que me haveria nesse mundo
E que procurei a vida inteira.

Adeus, meus sonhos e minha vida
Deixo rolar uma única lágrima, permito
Adeus, meus sonhos, não mais hesito
É a hora triste da partida.

Ana Roen

INDEFINIDA

Não sou a ilusão que tu sonhavas
Nem o esboço do sonho que querias
Fui perdendo as formas enquanto tu me desenhavas,
E nesse vago pouco a pouco me esquecias.

Fiquei assim indefinida e incompleta

Fiquei sem cor, esvaecida
Como a imagem que retrata uma época
De um tempo perdido nessa vida.

E hoje não me amo nem me amas
E vou me apagando com o tempo
O destino tem lá as suas tramas...
Não sou mais eu, nem as muitas que me invento.
 

Ana Roen

TÉDIO

Tem dias que a gente sente
Uma coisa que não deve
A falta até do que não serve
Do que não presta pra nada
Uma colcha velha já rasgada
Uma rua de terra enlameada
E até de uma dor de dente.

Ana Roen

A NOITE CONSENTE

A noite seu perfume exala
E meu pensamento inquieto
Passeia do chão ao teto
Por sobre as paredes da sala.

A noite sabe e não diz
A noite cala e consente
Porque a gente se sente
Na noite assim infeliz.

Ana Roen


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

OS MEUS CANSAÇOS

Os meus cansaços seculares
Atravessam gerações
Rompem desertos e mares
Vencem as estações.

Cambaleia pelo ar
Escala paredões
E se põe no limiar
Das sádicas ilusões.

Rompe barreiras sem fim
E a tudo consome
Cresce dentro de mim
Alimentando-se da própria fome.
 

Ana Roen

POEMINHA AO LONGO DO DIA

O cinza dá o tom do dia
As nuvens choram espessas

Os céus roubam as horas
A tarde empalidece

Caminha a noite às pressas
A noite chega. A noite desce.


Ana Roen


IMPROVÁVEL

A esperança
Serpenteia
E brinca de se esconder
Atrás das cortinas feias
Descoradas pelo tempo
Lá fora
Ao vento
Baila um sonho possível
Mas irremediavelmente
Improvável
Agora
Que desse lado do planeta
A noite escura
E preta
É uma sombra
Emoliente
E insaciável.
 

Ana Roen

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

EM VÃO

Bem longe ou perto tudo é deserto
Apenas o vento vem dar-me bom dia
Seu rumo eu não sei, seu caminho é incerto
Passa por mim mas não é companhia.

O céu é distante não posso alcançar
O sol já me queima a face, me agita
As nuvens no alto não podem parar
E seguem alheias sua estrada infinita.

As ondas na praia em seu ritual
Vem e voltam, pertencem ao mar
E nelas não vejo amigo ideal
As ondas se vão, não podem ficar.

As flores que eu vi murcharam, caíram
As flores perfumam mas tem vida breve
As flores são belas mas nunca me viram
Se não eu pedia, pra sempre me leve.

Ana Roen


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PARA SEMPRE EM MIM

Te guardo em cada verso que escrevo
Mesmo naqueles que não falam de ti.
Te guardo no silêncio das horas
Que converte dias em noites
E noites em dias diluídos.
Te guardo no frio da alma,...
Na tristeza sem fim.
No desejo que aflora
Doce e quente,
Na lágrima que cai
Silenciosamente,
No riso introvertido.
E assim te guardarei
Pela vida afora
E assim te guardarei
Para sempre
Dentro de mim.

Ana Roen