segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE VII (O poema sem fim)

As horas passam a tarde desce
Numa lentidão que não prospera
E eu fico como quem espera
O que a imaturidade do meu desejo desconhece.

Um silêncio fúnebre envolve a casa
O sol, o único visitante
Com sua luz alta flamejante
Qual um olho nitidamente em brasa.

Nenhum pensamento se sustenta
Tento sacudir os meus neurônios
Como um feixe em curto de iônios
Nessa impassibilidade que suplanta.

Ah, quantos pensamentos desconexos me nega a fala
Há em mim um espanto descomunal
Vem-me até a ideia do sobrenatural
Estou só. Ergo-me e caminho pela sala.

Em meio ao meu corpo também passeiam as dores
Um último resquício que há de vida
Nessa estranha sensibilidade resumida
Descrevo esse dia como um dos piores.

Ana Roen

domingo, 29 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE VI (O poema sem fim)

Domingo. Tudo no silêncio envolvido
Da tarde que misteriosa dorme
Apenas meu pensamento inerme
Na vigília por todos os sentidos.

De repente... cega-me a vista o inimigo astuto
E me toma de assalto a consciência
Com o caráter vital das emergências
Em vão procuro, inutilmente luto.

Não posso ver a sua horrenda face...
E tateando as vestes do carrasco
Seu hálito provoca um novo, estranho asco
E são novos para mim todos os disfarces.

Investe com tamanha força bruta
Incessantes golpes pelo ar desfere
E enfim a impiedosa e invisível mão me fere
E caio inerte para a luta.

Ana Roen


sábado, 28 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE V (O poema sem fim)

Sinto um grande prazer
Em escrever poemas feios
E na ânsia busco, permeio
As palavras mais duras de se ler.

E não há em nenhum idioma
Nem mesmo na complexa lusa
Um único vocábulo que traduza
Todo este anseio que me toma.

E nem há criatura viva,
No céu ou em abismos infernais
Que possa redigir meus ais
Com precisão exata e fiel descritiva.

E carrego para todo lado
Onde quer que eu vá, comigo
Como um infeliz mendigo
Este inútil e pesado fardo.

Não sei o que me aguarda
Já não vejo sentido nas linhas
O verso mal nasce, definha
Qualquer dia  não haverá mais nada.

Ana Roen


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

INSTÁVEL

Sempre escrevo com desvelo
Em linhas entrelaçadas
Se quiser puxar novelo
Vem o fio da meada.

No meu peito sentimento
Fez seu ninho fez morada
Numa noite de tormento
Dessas longas madrugadas.

Muito de vez em quando
Me visita a alegria
E se vai. Não porque mando
É que a alma é arredia.

Já cansei querer saber
Quando é noite quando é dia
Coração quem vai dizer
Pois eu vivo à revelia.

Tenho um pouco de loucura
E a mente muito instável
Mas eu sigo na procura
Sempre perco a própria imagem.

Muitas vezes até digo
Que não quero mais viver
Mas conseguem ou consigo
Esse quadro reverter.

Tem dias que acredito
A vida pode ser boa
E me vejo nos escritos
Do versar de outra pessoa.

E embora dividida
Desisti de entender
Pois não sou eu, é a vida
Que se põe a me escrever.

Ana Roen


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A NOITE

E a noite foi um negrume
Sem farol e sem lume
E foi mais noite que o breu.

E a noite velou quieta
Mas foi amiga e poeta
E um poema me deu.

E ficou comigo acordada
Até a primeira rajada
De sol e desapareceu.


Ana Roen

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

AMA

Ama com amor que dilacera
Ama com a fúria de outras feras
 

Ama com amor que não se devota
E ama com a alma de poeta.

Ama o amor que já se foi
Com todo amor que ainda resta.

Ana Roen

domingo, 22 de janeiro de 2012

ALI (MENTE) O SONHO SEMPRE

Vai e ande onde queres
Quem tem pressa tem que ir
Dê as voltas que quiseres
Mas na volta para aqui

Um poema é quase nada
Mas carrega mais de mim
De uma mente ocupada
De uma história quase fim

Entre um verso e outro abraço
O que a vida não processa
Coração me dita eu faço
O cansaço vira pressa

O meu subconsciente
Minha parte mais sombria
Distorcida e tão presente
Chama a isso poesia

Se quiseres me entender
Se desliga desse mundo
Feche os olhos pra me ver
Na verdade onde eu me escondo

Isso tudo é meu apoio
Quase nada ainda resta
Não sou trigo eu sou joio
Da colheita sou a festa

O meu choro é de verdade
O meu riso vai saber
Eu sou duas sou metade
E as duas tem que ser

Na loucura tu me encontras
Na tristeza sou carente
Na desgraça estou pronta
Eu renasço no poente

Fecho os olhos ver me apresso
Tal qual fosse do meu lado
Os teus olhos nos meus versos
Tu me lendo aí sentado

Ana Roen

sábado, 21 de janeiro de 2012

A COR DO DISFARCE

Tenho a alma violeta
E mais roxa de saudade
Que sob a luz do planeta
É lilás na claridade.

É camaleoa
A minh'alma dolorida
Quando entre as sombras voa
Toma cor indefinida.

Mas o seu grande disfarce
É ficar bem parecida
Com a cor da minha face
Já sem tom, descolorida.

O seu grande disfarce
É ficar bem nivelada
Com a cor da minha face
Invisível, cor de nada.

Ana Roen


TROVAS

Minha vida não é uma obra
Mas constantemente me cobra
Eu vou vivendo das sobras
Manobra após manobra

Me pondo sempre à prova
Aprendo somente com sovas
Mas sou dura feito andirova
Vem a esperança e renova

Que esperança uma ova
Enquanto caminho pra cova
Vou fazendo minhas trovas
À ver se alguém aprova.

Ana Roen


sábado, 14 de janeiro de 2012

MEU CORAÇÃO

Meu coração nas esferas
Desse mundo louco, irado
Debate-se entre feras
Em fuga, desesperado.

Carrossel de dissabores
Girândola de infelicidades
Retumbam os tambores
Nos acordes da adversidade.

Às vezes para tudo
E fica o grande vazio
Pelas escarpas do mundo
Silencioso escuro e frio.

Às vezes insiste, um anjo
Tocar sua canção para mim
Enlouquecem seus arranjos
Desafino seu flautim.

Qualquer cantiga é lamento
Qualquer história é terror
Punge o sentimento
O que mais existe? A dor.

Ana Roen

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

CANÇÃO DO EXISTIR

Para além de mim que existo
Além desse existir mais nada
De sonho apenas me visto
E me deixo ser levada.
 
Ana Roen

POEMA CONTÍNUO - PARTE IV (O poema sem fim)

 De que matéria fui feita eu
Que contraria a tudo que é humano
Que sentimento tão profano
Uniu-me a consciência de um ateu?

Sem Planos, sem objetivos
Passo os dias nessa vã procura
De uma doença para minha cura
Alimentando pensamentos corrosivos.

Matei meus sonhos mais queridos
E os trago a mim acorrentados
Pra tornar o fardo mais  pesado
Arrastando um coração já combalido.

Ana Roen

POEMA CONTÍNUO – PARTE III (O poema sem fim)

Afivelaram-se a mim as ilusões perdidas
No caminho que sigo hoje, as trago
Com um suspeito sorriso amargo
Que não podem disfarçar minha ferida.

E esta escuridão e chuva fria
E toda essa angústia que me toma
De todos os males, os sintomas
Com esta luz, com este sol não concilia.

E procuro da minh'alma o meu deserto
E fujo para a minha solidão
De imensidão a imensidão
Aos poucos, só aos poucos me liberto.

Então, passa por mim em ondas finas
Um choque, um tremor de ansiedade
E é como um vício, o fugir à realidade
Qual teor entorpecente das morfinas.

Ana Roen

POEMA CONTÍNUO - PARTE II (O poema sem fim)

Sombrios são meus passos nesse mundo
E meu coração hoje está doente
Dessa inflamada dor latente
Que me atira a pélagos profundos.

Constantemente esse pavor me cerca
Por todos os lados se me vem cobrindo
E o chão aos poucos se abrindo
Para que pra sempre nesse horror me perca.

Tudo o que eu digo se embaralha
Ou vem de maneira meio torta
Um verso em mil estrofes me recorta
Como o fio incisivo das navalhas.

E passa a um centímetro de minhas veias
Bombeia o coração num alvoroço
O que antes era sentimento insosso
De grande excitação se incendeia.

Meu coração enfim se presta
A um sarcófago, uma tumba
Para que cada sonho meu sucumba
E repouse em mim cada ilusão funesta.

Ana Roen